Vasco Pulido Valente em entrevista ao Correio da Manhã e à Rádio Comercial sobre as comemorações do centenário da república:

«Criaram essa República e que conseguiram a partir de 1913 governar em partido único. Esse partido governou sempre, excepto numas interrupções provocadas por golpes militares, pronunciamentos militares, em que usaram, para se manter, métodos terroristas. E que viveu sempre em guerra com o País, guerra aberta com o País.»
«Não devia haver comemorações nenhumas. É um episódio triste da história portuguesa e não devia haver comemorações nenhumas. Para todos os efeitos foi uma ditadura. A ditadura não nasceu do vácuo, nasceu da República!»
Vasco Valente Correia Guedes, conhecido por Vasco Pulido Valente, nasceu em Lisboa no dia 21 de Novembro de 1941. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa e doutorou-se em História em Oxford. Historiador, ensaísta, escritor e comentador político, lança nesta semana mais um livro sobre a história de Portugal.
(13 de maio de 2009)
Vasco Pulido Valente “enterra” o Centenário da República
Vasco Pulido Valente e o “regime terrorista” ouvir aqui :
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Vasco Pulido Valente em entrevista ao Correio da Manhã e à Rádio Comercial sobre as comemorações do centenário da república:
ARF – Vamos comemorar os 100 anos da República. No livro que lançou, sobre no período de 1910 a 1917, é muito contundente com a I República. Diz que foi um regime terrorista. Vamos andar um ano a chamar heróis a cidadãos que usaram o terrorismo?
VPV –
ARF – E porque é que se comemoram os 100 anos?
VPV – Eu sei porque é que se vai comemorar isso. Porque a República teve uma reabilitação póstuma, que foi a reabilitação salazarista. Como os republicanos eram contra o Salazar e havia muita gente que era contra o Salazar começou-se a achar que a República era boa porque era antisalazarista. Porque os republicanos, certos republicanos, eram antisalazaristas e começou a criar-se a lenda de que se a ditadura salazarista era má a ditadura republicana, a que ninguém chamava ditadura, era boa. Hoje em dia passa por ter sido um regime muito meritório que não foi. Ainda por cima, o nome oficial da República era República Democrática Portuguesa. Tinha lá aquela coisa, mas aquele democrático estava ali como estava nos países comunistas.
ARF – Coreia do Norte e outros.
VPV – Quase a Coreia do Norte. Não era tanto.
ARF – Vai participar nessas comemorações, já foi contactado?
VPV – Não.
ARF – Não foi porque tem essas opiniões?
VPV – Não.
ARF – Não convém às comemorações dos 100 anos?
VPV – Não sei se convém ou não convém. Mas compreendo que pessoas que queiram comemorar não me queiram. Mas houve uma senhora deputada que me veio falar em nome do senhor presidente da Assembleia da República. E eu expliquei à senhora deputada que já não tinha idade para receber recados por interposta pessoa do doutor Jaime Gama, que eu conheço desde os 18 anos. Portanto, se o doutor Jaime Gama me quiser falar não tinha mais que agarrar num telefone e telefonar-me. Não telefonou mais. E foi o único contacto que eu tive. Lembrei-me agora.
LC – Na sua opinião não devia haver comemorações?
VPV – Não devia haver comemorações nenhumas. É um episódio triste da história portuguesa e não devia haver comemorações nenhumas. Para todos os efeitos foi uma ditadura. A ditadura não nasceu do vácuo, nasceu da República.
ARF – Exactamente.
- Não é um período particularmente brilhante na nossa história e acho bem que não me convidem. É uma coisa que obviamente não estou na disposição de comemorar.
ARF – A propósito disso, a revolução do 28 de Maio de 1926 não nasceu do nada. Havia pessoas concretas e interesses concretos que fizeram esse golpe.
- Eu não gosto muito dessa linguagem dos interesses. O problema que se pôs à República é o problema que se põe a todos os movimentos revolucionários. É que os movimentos revolucionários ou mantêm a sua parte revolucionária, isto é, a sua parte terrorista e não conseguem governar, suscitam uma resistência contínua e não conseguem governar, ou então põem na ordem os seus próprios terroristas, os grupos que os apoiam, e são imediatamente submergidos pelas forças conservadoras. O velho dilema entre fazer a revolução e governar pôs-se para a República. E a partir de 1923, 1924 a República, depois de ter chegado ao cúmulo da anarquia, tentou fazer um caminho para a estabilidade e fortalecer a parte de Governo. Para isso apoiou-se em quem? Apoiou-se no Exército e quando o Exército se viu com o poder todo nas mãos evidentemente liquidou a República.
ARF – E vem Salazar na sequência disso.
- E acontece Salazar na sequência disso.
ARF – E Salazar manteve uma ditadura.
- O Salazar viveu numa ditadura militar. Sem o Exército não teria governado.
LC – Vamos dar um salto de 50 anos. Diz que o 25 de Abril não foi uma revolução e que acabou por não transformar a sociedade portuguesa.
- Não foi uma revolução. As pessoas apareceram nas ruas. Não havia movimentos sociais que impusessem o 25 de Abril. O 25 de Abril começou por ser um movimento corporativo, cresceu como movimento corporativo e só depois de ter ganho é que apareceram movimentos sociais, alguns espontâneos, outros nada espontâneos. A satisfação, o entusiasmo pelo fim da ditadura foi espontâneo, daí em diante tinha de analisar cuidadosamente o que foi espontâneo do que foi organizado. Mas não havia nenhum movimento social prévio, a não ser na imaginação de alguns esquerdistas e talvez do PCP, que impusesse o 25 de Abril.
LC – Havia uma oposição organizada.
- As pessoas em Portugal naquela altura não queriam fazer uma revolução. Queriam ir para França ou para a Alemanha. É preciso perceber isso. Não haviam nenhumas condições revolucionárias. As pessoas não queriam fazer uma revolução, não queriam vir para a rua, não queriam nacionalizar nada, não queriam ocupar terras nenhumas. Queriam pegar na mítica mala de cartão e ir para França onde ganhavam mais e melhor. Estavam fartas de miséria, não queriam distribuir miséria nenhuma, não queriam colectivizar a miséria portuguesa. Queriam ir-se embora.
ARF – Isso foi um sonho falhado do PCP, que imaginou que ia fazer em Portugal uma revolução.
- O PCP tinha o seu programa de colectivizar a miséria que o doutor Cunhal aplicou com uma cegueira absoluta.
ARF – Porque não conhecia Portugal?
- Não conhecia Portugal, não estava há muito tempo em Portugal e antes tinha estado preso em Caxias, ainda por cima grande parte dessa prisão em isolamento. Mas não conheceu em Portugal, não fazia a menor ideia. Por isso é que ele se conservou tão puro, tão intransigente, tão…
ARF – Dogmático?
- Tão hostil ao eurocomunismo, ao Carrilho e aos italianos. Começaram a perceber que aquelas receitas já não se podiam aplicar a sociedades tão complexas. Por um lado o Cunhal não tinha a experiência dessa complexidade e por outro lado Portugal era de facto uma sociedade muito mais atrasada do que a sociedade francesa, espanhola, mesmo a espanhola, ou italiana. De maneira que o doutor Cunhal convenceu-se que o movimentarismo das ideias dele era equivalente, era um bom reflexo do movimentarismo da sociedade portuguesa.
ARF – Mário Soares foi o grande homem destes anos depois de 1974?
- Foi o homem que percebeu que para haver uma modernização, ou seja, uma compatibilização de Portugal com a Europa, era preciso democracia. Acabar com o império e era preciso democracia.
ARF – Sá Carneiro não foi também importante nesse processo?
- Sá Carneiro não conduziu esse processo e Sá Carneiro não percebeu esse processo a tempo. E que esse processo para ter sucesso era preciso que estivesse associado a forças políticas na Europa. Que as forças políticas internas que havia a favor da democracia eram fracas. Os militares nunca foram grandes democratas nem por vocação nem por educação, o País estava longe de ser democrata, tinha da democracia a ideia mais vaga, havia um PCP relativamente forte, as forças de direita estavam desacreditadas e era preciso que houvesse uma força democrática capaz de impor a democracia. E que essa força democrática tinha de ser uma força ligada às forças democráticas europeias. A esquerda em Portugal, antes de 25 de Abril, discutia a teologia do marxismo. Até o doutor Álvaro Cunhal discutia a teologia do marxismo. Não se discutia Portugal. Discutia-se se os loucos pequenos burgueses tinham fachada socialista ou não tinham, se o PCP era de facto um partido marxista-leninista ou não era, quem era quem, quem eram os autênticos marxistas-leninistas, os verdadeiros revolucionários. Era isso que se discutia há anos. Enquanto essas pessoas andaram aí a discutir estas coisas tão importantes, o doutor Mário Soares foi à Internacional Socialista e fez um Partido Socialista com cabeça, tronco e membros. E apareceu com o PS e isso é que alterou tudo. Além do comportamento exemplar que teve no processo. Exemplar, inteligente e de um enorme talento, ia mesmo dizer génio, estratégico. Mas ele começou muito antes, ele viu o problema muito antes, não veio aqui e improvisou aquelas coisas.
LC – Disse que se estivesse no lugar de José Sócrates se demitia, que não teria condições para ocupar o cargo. Acha que José Sócrates não tem condições?
- A premissa está errada. Se eu estivesse, eu nunca estaria no lugar de José Sócrates. Isso é uma coisa de imaginação, chamada de imaginação histórica. Mas contando que é um acto de imaginação histórica eu, de facto, se estivesse no lugar de José Sócrates preferia perder as eleições e ir para casa.
LC – Mas porquê?
- Porque ele esgotou as soluções que tinha e ele esgotou o crédito que tinha, sobretudo. Lembra-se do crédito que tinha há quatro anos? O homem inflexível, o reformador, o intransigente, o homem que não parava, o homem que ia mudar tudo e veja o estado em que está o País agora.
ARF – Exacto.
- Sem a reforma do Estado, com o défice muito pior do que tinha, a Justiça no estado em que está, não fez nada, não reformou nada, há o Magalhães e há o simplex e há assim umas coisas. Eu disse essa frase porque o crédito que ele tinha há quatro anos esgotou-se, ele esgotou-se como político, o crédito que ele tinha há quatro anos já não o tem e já não o torna a ter. Já ninguém vai reagir ao engenheiro José Sócrates como reagiu há quatro anos, com esperança, mesmo na direita. Em todo o PS e em grande parte do PSD e da direita. E isso acabou.
LC – Considera a maioria absoluta essencial para o País? Prevê um período de instabilidade se o PS não tiver maioria absoluta?
- Eu não prevejo, eu suspeito que o PS não vai ter maioria absoluta.
LC – Isso é um problema?
- Pode ser que seja um problema, mas não considero que seja um drama. A gente não pode estar a voltar ao partido único com duas cabeças, bicéfalo, o PSD e PS, para a necessidade que agora se está a querer fazer passar de que é preciso uma maioria. Ou seja, nós só podemos viver com partido único. No fundo, o que nos estão a dizer é que nós só podemos viver com um partido único.
ARF – Só somos viáveis com um partido único.
- Portugal só é viável com um partido único. Eu recuso-me a aceitar isso.
LC – Encontra alguma possibilidade, ou haja que é desejável, de alianças no próximo mandato?
- Eu não sei, não sou político, falta-me muita informação sobre o estado do País. Também falta aos políticos, é verdade que sim, mas eles têm maneiras de as arranjar mais facilmente do que eu. Falta-me informação sobre o estado do País, falta-me informação sobre o estado dos partidos, que eles com certeza têm. E só com essa informação é que eu poderia dizer que certas alianças são ou não possíveis.
LC – No caso do PS, historicamente, a coisa não tem resultado bem.
- Há tantas soluções possíveis. Falta discutir. Deixar de fazer disto um drama e discutir. Vamos ver como é que a gente resolve este problema. Calmamente. Tranquilamente vamos ver como. Ou então a gente diz assim: nós só podemos ser governados por um partido. De quatro em quatro anos temos de arranjar um partido. Uma ditadura de quatro anos se não o País não funciona. Não. Recuso isso.
fonte:
http://www.correiodamanha.pt/Noticia.aspx?channelid=00000229-0000-0000-0000-000000000229&contentid=3B59DE73-9021-4FB3-B470-50FC2DDD4B3E
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