Há 1 ano, entrevistámos o Dr. Paulo Teixeira-Pinto, Presidente da Direcção Nacional da Causa Real.
Quando Paulo Teixeira Pinto compareceu no Congresso Eleitoral da Causa Real, realizado há poucos meses, estava longe de adivinhar que de lá sairia nomeado Presidente, uma proposta do Duque de Bragança, apoiada esmagadoramente pelos delegados ao Congresso da Instituição. Figura pública, porém mal conhecido dos monárquicos, veio a marcar pontos no programa Prós e Contras, da RTP, causando uma onda de pesquisas na Internet sobre a Monarquia, nessa mesma noite. Teixeira Pinto, que vem preencher o vazio deixado pela saída de António Sousa Cardoso, a avaliar pela intervenção brilhante que fez no programa da RTP, promete mudança, de acordo com a opinião de muitos. Quisemos conhecer melhor o homem à frente dos destinos da Causa Real, nesta entrevista exclusiva a O JORNAL, procurando proporcionar aos leitores mais uma oportunidade de travarr conhecimento mais de perto com o novo Presidente da Causa Real.
O JORNAL: Foi recentemente eleito para Presidente da Causa Real. Que novos projectos traz para a Causa Real?
PTP: No princípio, o Princípio: posicionar a Causa Real ao serviço da Casa Real. No fim, o Fim: contribuir para a Restauração da Monarquia e servir Portugal.
No meio, os meios: preparar uma grande posição pública em 2010, coincidente com o centenário da república.
O JORNAL: A Causa Monárquica parece falhar em cativar maiores audiências e simpatizantes, e por vezes perde militância de um modo que toca… Continua na pág 2 a apatia e desmotivação geral. Apontam-se como razões para este fenómeno, nomeadamente uma prática democrática deficiente e pouco transparente, a falha de contacto com as bases militantes, a ausência de políticas e estratégias bem definidas, a falta de uma liderança forte, ousada e carismática na Causa Real. Gostaríamos que comentasse estes aspectos, se possível apontando caminhos para o futuro.
PTP: Provavelmente, grande parte de dos pressupostos enunciados é verdadeira – sem prejuízo de entre eles haver alguns contraditórios. Porém, o ponto não é esse. Mas é tão simples que receio esquecido: os monárquicos, ao contrário dos republicanos, não é suposto organizarem-se em movimentos, tendências, grupos, personalidades de múltipla natureza, por vezes entre si rivais. Ao invés, devem fazer a si mesmos uma simples pergunta? O que é serve mais e melhor o Rei? Ou, dito de modo diverso: qual será a preferência, o gosto, a vontade do Rei? Estou seguro que estas duas respostas eliminariam grande parte das dissidências e divergências. Facto é que a Causa Real mudou mesmo. Sem pôr nada em causa do passado. Mas com novo modelo de funcionar. Uma nova estratégia. Uma nova ambição.
Talvez o melhor mesmo fosse ver por dentro, em vez de uma simples entrevista.
O JORNAL: Que pensa fazer para promover a união dos monárquicos em torno do mesmo Ideal? Tem alguma ideia para acabar com as chamadas ”guerras de corte”?
PTP: A resposta depreende-se (julgo que com clareza meridiana) da anterior: a Causa Real não é suposto ser um primus inter pares. Não. Está ao serviço da Casa Real e é a si que deve caber a liderança pelo combate político que, mais cedo ou mais tarde, há-de resultar na Restauração.
O JORNAL: Tendo em conta que a média de simpatizantes da Monarquia em Portugal é de 15 a 20 por cento e a Causa Real tem cerca de 10 mil associados, que políticas de expansão e motivação pensa adoptar, no sentido de captar uma base associativa de maior peso, em particular depois do repto que lançou no programa Prós e Contras, sobre o Referendo?
PTP: Esse é um trabalho pessoal – mas também uma responsabilidade indelegável – de cada um e de todos os monárquicos. Repito para que não possa haver dúvidas ou leituras alternativas: esse é um trabalho pessoal – mas também uma responsabilidade indelegável – de cada um e de todos os monárquicos.
O JORNAL: Também no programa Prós e Contras, e quanto à defesa do Referendo, sobre o Regime: sabendo que no Brasil, o referendo decorreu em condições de desigualdade, contribuindo para a derrota monárquica, que condições considera indispensáveis para um Referendo em Portugal, que se possa considerar justo e imparcial?
PTP: O melhor método que conheço é sempre o dos bons exemplos, ou seja, das melhores práticas. E em sede referendária penso que o exemplo a seguir é o da Irlanda.
O JORNAL: Há monárquicos que consideram condição sine qua non para o referendo a realização de um trabalho de propaganda do sistema monárquico de porta a porta, de aldeia em aldeia, quase como na altura dos comícios do Verão Quente, pós-Abril. Sem conquista de bases não há poder real. Está de acordo?
PTP: A questão é prematura. Além de que a táctica deve estar subordinada à estratégia – não ao contrário. Em qualquer caso, não há certamente similitude possível nas formas de comunicar – também políticamente – entre o que se passou há mais de 30 anos e os dias de hoje.
O JORNAL: Um dos aspectos mais interessantes da expansão monárquica tem sido a crescente intervenção monárquica, cívica e política, na Internet. Mas a Causa Real continua a não ter uma presença Internet, o que impede, em larga medida, uma abertura de diálogo entre os Portugueses e a Monarquia. É porém ponto assente entre vários especialistas estrangeiros que a cidadania vai ter cada vez maior expressão na Net. Tenciona reformar o actual estado de coisas em termos de presença Net da Causa Real e das Reais Associações?… Se sim, que medidas tenciona adoptar?
PTP: Logo na primeira reunião da Direcção a que presidi, no próprio dia da eleição, ficou decidido reformular por completo toda a nossa intervenção na Net. Está, por isso, a ser feito um trabalho conjunto com uma consultora internacional especialista na temática.
O JORNAL: Uma das características funcionais da estabilidade das monarquias europeias actuais, é a posição de isenção e não intervenção na política activa. No entanto em Portugal, o Duque de Bragança intervém, opinando com alguma frequência em matérias que – se estivéssemos em Monarquia – não lhe competiriam. Acha que esta situação poderá a prazo causar confusão aos Portugueses, quanto ao papel de uma Monarquia Democrática Constitucional no Portugal moderno?
PTP: Não – precisamente porque o Duque de Bragança não é, de iure, Rei.
O JORNAL: Partindo do princípio que uma prática democrática moderna e aberta aconselha um diálogo construtivo, que políticas de diálogo e maior abertura pensa implementar, no que respeita às relações entre a Causa Real e organizações monárquicas portuguesas independentes?
PTP: Institucionalmente, poderia remeter para as 3 primeiras respostas, mas a minha posição pessoal é a de estar sempre aberto a ouvir quem vier por bem.
O JORNAL: Ouve-se com alguma frequência que a opinião pública continua a ver os monárquicos como conservadores. Como tenciona contrariar esta imagem, tendo em conta que uma Monarquia isenta tem que ser forçosamente transversal e apolítica?
PTP: Com o testemunho público de pessoas muito diferentes entre si, não enquadráves em nenhum estereótipo comum.
O JORNAL: Monarquia Constitucional ou Respública Coroada?
PTP: Com o devido respeito, a pergunta faz mais sentido quando feita a um republicano….Um monárquico português não tem hoje opção outra que não a da legitimidade constitucional.
O JORNAL: Acha que um sistema monárquico pode relançar em bases coerentes e realistas a Economia e Indústria Portuguesa?
PTP: A Monarquia não é um sistema político – será um tipo de regime, segundo o critério da titularidade da chefia do Estado. Ora, o “Rei reina, não governa”. Donde não ser suposto que lhe incumba, por exemplo, o relançamento da economia – que é, por natureza, uma missão do Executivo.
O JORNAL: Qual é, para si, o maior desafio com que se depara a Causa Real neste momento?
PTP: Unir os monárquicos à volta de quem representa e personifica o ideal real.
O JORNAL: Quais as vantagens fundamentais de um regresso a um sistema monárquico?
PTP: Cada caso é um caso. E o caso português é o de a sua história de oito séculos ter sido feita sob a égide real. Logo, não pode haver vantagem alguma que comparar se possa ao resgate da própria identidade comunitária.
O JORNAL: Perante “a venda” a que Portugal tem sido sujeito de que forma é que o sistema monárquico poderia reverter esta situação?
PTP: Nem um Rei teria poder para tal. Aqui ou há uma vontade colectiva, ou não.
O JORNAL: Tem-se notado, nestes últimos anos, alguma crise de… Continua na pág 4 ENTREVISTA: continuação da pág 2… militância, que, ao que parece estar a ser ultrapassada. Que papel acha que a Causa Real e as Reais Associações devem ter para estimular mais os seus associados em estarem mais junto da população em diversas iniciativas, de forma a divulgar o ideal monárquico?
PTP: Se cada um fizer o que estiver ao seu alcance, tudo mudará muito mais depressa. Repito que não há melhor forma do que o exemplo. E que exemplo melhor poderiam os monárquicos ter do que o próprio testemunho da Família Real?
O JORNAL: Que opinião tem do “boom” de sites, blogs, fóruns que desde há uns 4 ou 5 anos tem se espalhado na Internet? Já conhecia o FDR – Fórum Democracia Real? Que opinião tem do nosso espaço?
PTP: Penso que, mais do que um sinal de modernidade, é um marco de esperança para o ideal real. E confesso que só agora, depois de investido nestas funções, me apercebi da extensão do fenómeno. Parabéns também ao FDR!
O JORNAL: Dr. Paulo Teixeira Pinto, agradecemos-lhe a amabilidade que teve em responder à nossa entrevista.
Nota: na altura ainda éramos, FDR – Fórum Democracia Real. Relativamente ao Congresso deste ano, já publicámos tudo relacionado a ele!
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